segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Rio Grande do Sul, um país que poderia ser nosso!

(As três fotos: Jardins da DMAE)

Não se iludam, o Rio de Janeiro e os cariocas vivem do que foram e do que acreditam que são! Nem uma coisa, nem outra satisfaz a necessidade de sobrevivência diária nas ruas da cidade e na memória afetiva do povo brasileiro. Essa nostalgia de um tempo que a maioria dos cariocas não viveu faz com que os mesmos se comportem como funcionários públicos privilegiados de um tempo que já não está, mas nem é disso que quero falar aqui.




Estivemos no Rio Grande do Sul, Porto Alegre,  Bento Gonçalves, Gramado, Canela, Nova Petrópolis, Morro Reuter, e posso dizer, sem susto, que o problema brasileiro está em Brasília e sua caixa de repercussão é o Rio. Como disse o dono do restaurante em Morro Reuter, ele só sabe que tem problemas quando liga a televisão à noite. Emprego, segurança, estradas transitáveis, povo educado ( basta vc pisar nas faixas de pedestres e os carros param!!!), gentil em sua maior parte, comida a preços suportáveis, pouquíssimos homelesses.... As pessoas em Porto Alegre estão, aparentemente, preocupadas com a segurança e a falta de empregos, mas o interior do estado desconhece totalmente esses problemas (pelo menos, mas  cinco cidades em que estivemos!).

A Igreja de N.Sa. das Dores, linda!

Fundação Iberê Camargo, obrigatória!

Não há como fazer um post curto, muito embora as críticas específicas estejam no Trip Advisor, é só procurar por manoel339, que sou eu. Dúvidas? Comentários ajudam a entrar em contato comigo, é só postar.

Começamos a viagem por Porto Alegre, uma cidade cheia de atrativos. Imperdível mesmo é o passeio nos jardins da DMAE, lindos, bem cuidados, com bancos maravilhosos de concreto, árvores, flores o ano inteiro, segundo um senhor que trabalha lá. Os locais tradicionais de turismo - Fundação Iberê, Fundação Santander, Mercado Municipal, Igreja Nossa Senhora das Dores (linda, esqueça a Catedral!),  Casa de Cultura Mário Quintana, Museu de Arte do Rs, - estão disponíveis em qualquer guia da cidade. O Caminho dos Antiquários talvez valha a pena no sábado; em dias de semana, não vale! O passeio pelo centro, visitando o viaduto Otávio Rocha pode ser perigoso, não vá sozinho. Posso adiantar que todos valem a pena, mas você não pode deixar de fazer   um passeio pelas margens do Rio Guaíba, se possível ao entardecer, onde a cidade fica na contraluz e é lindíssima. Nosso hotel foi o Quality, da rede Atlântica, que, a exemplo do de São Paulo, é muito bom, com pessoal bem treinado e serviço muito atencioso.

Restaurantes em que estivemos e acho que vale a pena serem citados aqui:  Pizzaria Bazkaria (muito boa pizza!), Koh Pee Pee (thailandês, de primeira!), Pippo Baggio (comida padrão italiana), muitas cafeterias e cafés.

De Porto Alegre, pegamos a rota romântica para as cidades da serra gaúcha.  É um pouco mais longa que a estrada comum, mas você vai passar por lugares lindos, cidades pequenas cheias de charme e a estrada é uma das mais bonitas que já vi. Daí, como não pretendo escrever um guia, mas narrar minha viagem, um conselho que acho fundamental: alugue um carro para que possa aproveitar todas as belezas da viagem! ônibus e grupos vão limitar suas possibilidades de diversão, tenha a certeza. A estrada não é bem sinalizada, tome cuidado!

Em Bento Gonçalves, ficamos no Vinocap, bastante bom e bem localizado, embora qualquer hotel na Avenida Planalto (não é esse o nome dela, mas todos conhecem desta forma!) esteja mais bem localizado, já que vc pode sair à noite sem pegar um táxi.

Imperdível mesmo é o passeio pelo Caminhos de Pedra, onde casas antigas são abertas às pessoas, cada uma se especializando em algo ( por exemplo, casa do tomate, casa da ovelha, casa dos embutidos (imperdível, o melhor salame que já comi!), casa dos vinhos, etc. Algumas das casas são pousadas, é só procurar saber.


O segundo imperdível aqui é o Restaurante Caldeira, do Rafael, excelente, com uma comida divina! Além da simpatia do Rafael, que conhece tudo por ali e dá dicas ótimas de vinícolas fora do  programão turístico! Siga os conselhos dele e você vai se dar super-bem, no bom sentido.

Ainda em Bento Gonçalves, o vale dos Vinhedos é um passeio para, no mínimo, dois dias. Se você for carteirão, pode ficar no Spa do Vinho ou em uma das pousadas dentro de uma das vinícolas. As vinícolas menores têm um atendimento mais personalizado, mais atencioso, embora o trabalho da Casa Valduga seja digno de nota, pela qualidade e atenção das pessoas por lá. Faça a visita, o ingresso dá direito a uma taça (daquelas de titânio), que se transformará em uma ótima recordação da viagem.
Visitamos as vinícolas Pizzato e Lidio Carraro, as duas excelentes, com vinhos muito acima do padrão. Recomendo. Também recomendo a Vinícola Geise, que é fora do Vale dos Vinhedos.

Casa Valduga, visita obrigatória!

Cascata do Caracol, em Canela

Catedral de Pedra, linda!


Fotos: não tenho, fiz alguma merda e apaguei as fotos de toda a parte de Bento Gonçalves!

Depois, Gramado, Canela, nada fora do comum, a não ser o Hotel Laghetto Centro, com seu pessoal excepcional. É caro, mas vale a pena. Os passeios são os tradicionais, que constam em qualquer guia. Podendo, vá ao Bar do Wilson, sendo que o próprio é uma delícia de se conversar. E fica aberto até tarde (para padrões gaúchos, claro!). Faça os passeios, você é um turista por ali e então aja como um: vá a todas as atrações, pode se surpreender com uma ou outra ( no nosso caso, Mini MUndo e Lago Negro!!). Restaurantes são milhares, é seguir seu feeling e arriscar. Fomos ao El Cordero (carnes, carnes, carnes e...carnes!) e ao  Carlito's Prime (so and so). Mas não faltam opções, certamente há uma para deixar sua estada por ali mais alegre.

Voltando pela Rota Romântica, paramos em Nova Petrópolis - a aldeia do imigrante é bem divertida e instrutiva!- e Morro Reuter, para almoçar e onde ouvimos a frase da viagem: "Se o Brasil está ruim, só sabemos à noite, pela TV! Aqui tem emprego, comida e casa para todos!". Pensar positivo ajuda, né não??!!




Boa Viagem para vocês e aproveitem!!


Alugue seu carro, é tudo que posso afirmar. Você não vai economizar nos prazeres que essa atitude lhe trará! As chances de se surpreender crescem exponencialmente se você tem um meio próprio de transporte! Invista nisto!

Informações mais detalhadas estão no Trip Advisor, meu nome lá é Manoel339!!


sábado, 19 de agosto de 2017

Reflex....

Uma semana trágica, para todos. Para o Ferreira Gullar, que preferiu ir embora a ficar por aqui, sem poder participar. Será que terei coragem, quando chegar a hora? Pois é exatamente o que eu gostaria de fazer, hoje, não tendo de fazê-lo.

O abismo parece que se agiganta, que tudo, um dia, irá nele caber. Não há abismo do tamanho do Brasil, já disseram. O pessoal tem se esforçado muito em aumentar o tamanho do abismo para que o país caiba nele. Rupturas, deselegâncias  etc e tal. É possível acreditar no legislativo, no judiciário (minúsculas, por favor! E fonte menor!)? Não falo no executivo, senão vocês vão achar que eu estou enlouquecendo e moro em algum outro país.

Cadê o povo que nos governou por treze anos e que foram apeados do poder por pura corrupção? Seus defensores, além de reclamar que o Temer não resolve o país em seis meses, depois de treze - 13, thirteen, dreizehn, trinadtsat (googlem aí!!!), não foram às ruas reclamar da corrupção nem da atuação lamentável do presidente do Senado!!! Ué, estão satisfeitos????Alguém aí viu uma bandeira vermelha??? Ou será que a questão tornou-se apenas salarial? Uma questão que remete à situação da educação do país, parece que está tudo bem, menos o salário dos professores.

Em um país em que as pessoas estudam, vão às faculdades para ALCANÇAR e não para APRENDER, fica difícil qualquer tipo de discussão, visando à modificação de todo um sistema que, passados 30 anos da última reforma, já provou que está absolutamente craquelado, fora do esquema mundial e está nos conduzindo à rabeira de um mundo cada dia mais distante, muito à frente.

Estamos apenas à frente da Indonésia, o que diz muito do estado do país. O judiciário, a cada dia, dá mais provas de que se constituiu em uma casta cheia de soberba e empáfia, cujos membros se colocam acima das questões mundanas, como administrar a aplicação das leis, coisinhas banais. Rebelam-se apenas quando se fala em seus astronômicos salários, justificando que os absurdos que recebem são "legais", como se a Lei Orgânica da Magistratura não fosse a Tábuas das 10 Mil Vantagens... e que foi feita para atender aos mais comezinhos dos desejos de ascensão social que seus membros, nem tão secretamente, alimentam.

Tá feia a coisa! E eu nem postei com foto...


Invictus

O primeiro post do ano, e como eu sou Captain of my soul, não quero nem dizer os motivos para tão prolongada ausência. Espero que vocês concordem com a escolha do poema, o primeiro do ano.

Invictus

Related Poem Content Details

Out of the night that covers me, 
      Black as the pit from pole to pole, 
I thank whatever gods may be 
      For my unconquerable soul. 

In the fell clutch of circumstance 
      I have not winced nor cried aloud. 
Under the bludgeonings of chance 
      My head is bloody, but unbowed. 

Beyond this place of wrath and tears 
      Looms but the Horror of the shade, 
And yet the menace of the years 
      Finds and shall find me unafraid. 

It matters not how strait the gate, 
      How charged with punishments the scroll, 
I am the master of my fate, 
      I am the captain of my soul. 

domingo, 27 de novembro de 2016

Álvaro de Pessoa, Campos.

Era para ter sido na quarta, esqueci de programar! Então, fica para domingo, sem diálogos absorventes, que tenho que preparar o material para o bazar do dia 3, próximo sábado. Há perdão? Sempre há, principalmente quando se acredita. Vide Fidel, um santo para os que nele acreditam. Morreu, não virou anjo em vida, virará santo? É esperar....
Enquanto isso, vamos nos entranhando com o Álvaro, uma pessoa estranha.

Ego", de Marcelo Sahea,


Tabacaria


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, in "Poemas"


Dá para pensar uma eternidade, então sugiro que pensem até o próximo domingo.

domingo, 20 de novembro de 2016

Diálogos Absorventes, sem abas.

Para os fluminenses, uma semana palpitante. Primeiro o Garotinho, com sua família estranha. Meio estranha, se considerarmos que Dona Rosinha, com aqueles cabelos, poderia muito bem ser membro da Família Adams, o que tornaria tudo muito mais palatável. Dona Mortícia sempre foi uma senhora amorosa.

A família inteira tem antecedentes, imagino que sua (dela, a família, não sejam maus!) árvore genealógica tenha várias gaiolinhas penduradas...vai saber. Pela altura com que gritam, seu (deles, novamente, gente má!) deus ou está surdo ou está um tantinho irritado com essa gente que só pede. Porque rezar, com certeza, eles não rezam. Rezar de verdade, né?

Aquela gritaria, aquele vexame público com olhos cheios de lágrimas, me fizeram lembrar Saki (googlem aí, que não estou para educação nesses dias!), quando ele diz que a dignidade perdida não é uma posse que possa ser recuperada em um momento, é quase tão dolorosa quanto a recuperação lenta de um afogamento. Terão tempo para pensar em uma estratégia de recuperação de imagem, mas duvido muito que consigam fazê-lo em tempo hábil para assistir a esse milagre.

E, numa segunda parte tão excitante quando um segundo ato de Shakespeare, a prisão do nosso mocinho, aquele garoto que deixava antever vôos maiores em direção ao Planalto Central (nos dizeres do jornalista Roberto Marinho!), o Guvernador  muderno que circulava por todos os estratos, mas, principalmente, nas salas de nossa intimorata imprensa.

Sérgio Cabral, você fez muitos servidores públicos muito contentes, indo para a cadeia com aquela mochila LV! Parabéns! Mas verde não fica bom em vc, a sua ficha na polícia está com aquela foto triste, em que vc se mostra abatido.

Eu não sei incluir música aqui, senão incluiria Chin Up, do Copeland, onde diz ..

"Back to where we started,
Losing who we were,
Everybody knows that,
You’d break your neck to keep your chin up."


Tá na hora de mostrar destemor e coragem. Agora é hora! Agora é que é! OK, aquela história de usar o banheiro para o número dois na frente de vários companheiros de infortúnio é meio chocante, mas o que é a vida sem as novas experiências que o dinheiro não pode comprar??? Encare isso como uma nova perspectiva ou então peça aos amigos para fazerem uma paredinha, com as costas voltadas para vc. Ajuda divina, acredito que não virá, o deus de vocês está ocupado com a família lá de Campos.

Ainda na fase das sugestões, procure ler Sobre a arte de viver, de Roman Krznaric, principalmente no capítulo dedicado ao dinheiro, onde ele diz:..."é compreensível que numa cultura voltada para o desfrute de bens de consumo de luxo, em que a posição social está tão estreitamente relacionada a exibições de riqueza, muitos relutem em abraçar um modo de vida mais frugal." Então, esse retiro forçado a que vc, Sérginho (assim mesmo!), está forçado, pode servir como uma mola propulsora de seu renascimento como um ser humano decente, capaz e com vontade de trabalhar. Como vc era, ou parecia ser.

Aí, povo do Rio de Janeiro, o Xexéo concorda comigo: vocês não sabem votar! E coincidências são levadas a acontecer: vejam isso aqui, onde o futuro é desconstruído pelos fatos!

Diálogos Absorventes, sem abas, neste Rio de Janeiro de gente estranha:

Abriram uma loja de bolos aqui perto de casa. Vão abrir mais duas, uma delas de propriedade daquela moça que atormenta as manhãs de todo mundo, que não é pirata, mas tem sempre um periquito no ombro.

"- Moço, paga um bolo pra mim?", diz a moça, carregando um daqueles bebês-sacolas-a-tiracolo.

Como vcs sabem, eu me recuso a partilhar da culpa generalizada. Nada me perguntaram, nem pediram, quando fizeram o novo ser-sem-perspectiva. Tivessem pedido, teria lhes dado uma camisinha.Então, entrei com:

"-Não está dando!Bolo tá caro!" - afinal, economia é da hora!
"-Mas é meu aniversário! Tô triste!", em uma dialética desenvolvida na necessidade diária de tocar a alma das pessoas.
"-No meu, tomei água! Bolo está pra rico!", sigo eu, sem compaixão alguma.
-"E se for pra criança, o senhor paga?", num último apelo que é uma apelação.
-"Criança não pode comer bolo!Açúcar faz mal!". e, um Herodes redivivo nesses tempos em
que se regojiza com garotinhos na cadeia, segui meu caminho.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Paulo Mendes Campos

Qurta-feira, né? Dia de poesia.

Não é um poema, quer dizer, formalmente, não é. Mas é!

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba: crônicas líricas e existenciais. 2a ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 21-22).

domingo, 13 de novembro de 2016

Diálogos Absorventes, sem abas!


A semana começaria com a eleição do Trump, mas não dá para deixar a situação atual do ERJ sem comentários, principalmente considerando-se a selvageria das manifestações. Pensando com profundidade, pode-se chegar á conclusão de que é a única forma de se fazer ouvir, num país e num estado como os nossos. Há adeptos e pessoas que crêem que essa - a violência - seria a única solução que garantiria um resultado efetivo. Não sou partidário.


O governo do estado diz que vai acabar com as secretarias, mas não vai acabar com os cargos!! Oi?????!!! Do que estão falando então? A Lava-jato está chegando aos políticos do Rio, o que quer dizer, Cabral e Piccianis....no plural! Hà maneiras de economizar sem que se demonize os funcionários. Uma sugestão simples: acabar com os cargos em comissão, T-O-D-O-S, chamar os funcionários que não estão trabalhando de volta, acabar com a cessão de funcionários da Secretaria da Educação para órgãos não ligados a ela, coisinhas simples...
Regulementar o uso de material de custeio - papel, essas bobagens(???!!!) pode representar uma fortuna anualmente. É só querer!



Não tem jeito de passar a semana e não falar da eleição de Trump!
O mito democrático - uma pessoa, um voto- acaba,mais uma vez, de provar ser inexequível. Mas ainda é o melhor sistema, não me confundam. Nós não elegemos Dilma, Lula e um etc inominável e assustador? O americano médio não tem cabeça e, como a maioria dos brasileiros, não consegue se desapegar da necessidade de um paizão, de alguém que nos empurre de encontro aos nossos sonhos. Não é fácil!
A violência que vem se iniciando nos EUA, principalmente onde não se votou em Trump, ou melhor, onde Trump não ganhou, prova só uma coisa: nem tudo é uma questão de educação! Há um componente racista, preconceituoso, que tem de ser considerado. Vale ler Sennet, "O Fim do Homem Público"!!!! É antigo, mas boas ideias não envelhecem, somente os ídolos e esses morrem.



nosso judiciário (minúsculas, por favor, sem nenhum atributo!) continua sua saga em direção ao descolamento total da realidade do país que o sustenta: dizem que os penduricalhos salariais são decorrentes de leis, portanto, legais!! seria até decente, se não legislassem sempre em causa própria. A leitura da Lei da Magistratura de qualquer estado e da Federal também são de assustar: a quantidade de privilégios é indecente, para usar uma palavra publicável!! Auxílio moradia para quem ganha 40 mil???!!!! Como assim????!!! E quem ganha até três salários mínimos, qual seria a justificativa para não receber o"auxílio fundamental para o exercício das atribuições sem desgaste emocional", no dizer de dona Carmen? Estão brincando com fogo, chegará a hora em que o povo vai querer pesar a vantagem do funcionamento das instituições e o custo que esse funcionamento esdrúxulo representa. Não é coisa simples! E sabemos como termina!


E o Congresso? Está cada dia mais difícil defender seu funcionamento, principalmente quando legisla, também em causa própria, né? Se não mudarem, rapidamente, a garantia de funcionamento democrático das instituições corre perigo, é só ver a história e se lembrar de que ela sempre se repete. Às vezes como farsa, ou então como tragédia. A farsa já esteve aí, nos últimos catorze anos. Resta-nos a tragédia!


O ano de 2016 insiste em nos proporcionar tristezas, surpresas desagradáveis. Morrer não é um problema, faz parte do ciclo a que todos estamos sujeitos e é bom aprender a aceitá-la como parte de nossa travessia. Acontece que certas pessoas tornam essa travessia mais suportável, aplainam os caminhos, fornecem uma sombra emocional ou novas perspectivas para o percurso que ainda será trilhado. Vamos combinar: não morre mais ninguém que eu ame, certo, 2016??? Pode exercer seus poderes junto ao congresso ou .... bom, pode parecer que estou sendo maldoso, então para aqui.


Um diálogo absorvente, talvez com abas, ouvido na praça Afonso Pena, entre o pessoal que joga baralho, noite e dia:

- "Zérruela vai acabar mal, no meio dessa garotada que usa tóchico (assim mesmo!)!!"
- "Que isso, Daniel. O cara é cabeça feita, tem até curso superior!"
- "Se isso servisse para alguma coisa, não torceria para o Vasco!"

Tá bom, falta wit, mas minha querida Claudinha iria adorar ouvir.

Quarta, se vcs não notaram, é dia de poesia. Uma surpresa!