sábado, 26 de abril de 2025

Poesia nessa hora????

 Final de abril, a caminho do meio do ano...,tudo muito rápido, na velocidade dessa nova civilização, desse ser humano que desconhece algumas das regras mais básicas de convivência, que não tem pudor algum em expor publicamente suas mazelas, do câncer da mãe às hemorróidas inflamadas. Difícil a convivência.

Essa não é a questão... a questão é a poesia, os novos poetas e os antigos também. Eu gosto muito da Sophia Breymner, da Orides Fontela, Bruna Berner, Angélica Freitas e outras esquecidas agora, mas não menos importantes na minha formação.


Orides tem uma poesia que chamo de carnal, atinge regiões da sensibilidade que eram desconhecidas.
Um exemplo:

Fala

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)

Claro, toda palavra é crueldade quando é utilizada para atingir alguém.Toda crueldade precisa de uma vítima, de uma imolação, para que faça sentido.

Nota: Como quase sempre, as fotos são de minhas colagens.

quarta-feira, 26 de março de 2025

Civilidade e abandono

 Quatro dias no Rio de Janeiro, Hell de Nojeira para quem tem consciência do que acontece por lá. 

Falta de urbanidade - jogam lixo em qualquer lugar, estacionam nas calçadas, tomam os espaços públicos para benefícios privado e um etc gigantesco que nem caberia aqui. 

Falta de civilidade: aceleram quando você está atravessando a rua, como se fosse um GTA da vida; não respeitam idosos e pessoas com deficiência (alguns dos privilégios até acho injustos, mas eles existem e devem ser respeitados); empurram, não pedem licença para nada, param os carros em qualquer lugar, sem se importar com as consequências de seus atos, como se fossem caçadores a quem tudo é permitido.

Triste, já que foi a cidade que escolhi. Não caí de paraquedas, não nasci ali por acidente, foi uma ação consciente que me levou a habitar essa cidade por trinta anos.

Nossa escolha para mudarmos para a serra não poderia se mostrar mais acertada, não fosse a pandemia, que trouxe para as proximidades os vícios, a deseducação, os maus hábitos dos cariocas.

Mais triste ainda é que a Princesinha do Mar envelheceu,enrugou, está com um papo de peru e manchas na pele que mais parecem manchas de um leopardo no Seringhetti.

 Pode ter sido uma cidade muito bonita, mas acredito que não resiste mais a uma análise detalhada de seus aspectos mais cotidianos, com os prédios sem distanciamento, sem limites de altura.... sem contar o mau cheiro, uma fossa aberta, seja nas ruas do Centro, seja nas estações do metrô, seja nos amontoados de lixo por todo lado. Eduardo Paes, o Prefeito Simpatia-é-quase-amor, poderia passear mais pela cidade, respirar o ar não filtrado das ruas, abandonando os gabinetes e salas assépticas nas quais vive.

A violência nem merece um comentário aqui, só merece a tristeza daqueles que são suas vítimas e têm de conviver com os impermeáveis a qualquer coisa que não lhes aconteça diretamente.


Quatro dias...quatro estações....quatro sentimentos que afloram e persistem, mas que são dominados pela tristeza imensa de ver um símbolo de um País que um dia foi alegre se perder nos emaranhados da modernidade.


Colagens minhas, foto da Internet.

quinta-feira, 13 de março de 2025

Orides e o Carnaval

 Que coisa!! Pós-carnaval, parece que tudo fica mais fácil. Como não participo dessa alegria compulsória, fico em casa, aproveito para colocar a leitura em dia, trabalho no atelier (as colagens estão por aí!) e me divirto pensando.
Pensando que somos um país condenado ao fracasso...não é possível que essa sequência de fatos esdrúxulos seja natural, alguém lá em cima colocou um pano de prato no futuro do Brasil...

Não, eu publiquei nada; então, publico hoje uma das minhas poetas favoritas, a quem admiro muito e sinto que não seja conhecidíssima e amada por todos que gostam de sofrer em conjunto.Claro, estou falando da Orides Fontella, cuja obra completa foi lançada há pouco tempo. Dela, pode-se ler:


FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

E, para quem gosta:



O GATO

Na casa
inefavelmente
circulam olhos
de ouro

vibre ( em ouro) a
volúpia
o escuro tenso
vulto do deus sutil
indecifrado

na casa
o imperecível mito
se aconchega

quente (macio) ei-lo
em nossos braços:
visitante de um tempo sacro (ou de um não tempo).

Quem escreve "toda palavra é crueldade" tem de estar na prateleira mais alta.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Viagem ao Paraíso Reformado

 

 Passeando pelo sudoeste mineiro (Anta, Sapucaia, Leopoldona, Cataguazes, Dona Euzébia, São Domingos), pode-se constatar vários aspectos muito peculiares da vida brasileira, que só não são mais chocantes porque o brasileiro não se choca com mais nada.

 Passeando pelo sudoeste mineiro (Anta, Sapucaia, Leopoldina, Cataguazes, Dona Euzébia, São Domingos), pode-se constatar vários aspectos muito peculiares da vida brasileira, que só não são mais chocantes porque o brasileiro não se choca com mais nada.

As estradas dominadas pelos caminhoneiros, trabalhadores como todos nós, em filas de 6, 7 gigantes da estrada, impossíveis de se ultrapassar. O desespero quase se instala, até a chegada de uma santificada faixa adicional e, mesmo assim, é melhor do que qualquer Seven Flags desse e de qualquer mundo. A se anotar: as estradas MINEIRAS pedagiadas estão em ótimo estado, com alguns erros de concepção (não há paradas de descanso, as pistas adicionais são poucas ainda, sinalização quase inexistente). Estou falando de onde andei (veja acima), Minas tem mais de 800 municípios.

A mão de obra não qualificada está desaparecendo... A queixa é geral, em todos os lugares em que estive. Com a profusão de bolsas isso e aquilo, não há estímulo para o trabalho e a qualificação não permite que se pague o salário de miséria desse país. Uma sinuca, antevista por muitos, mas que se instala de forma irreversível. 

A comida está se pasteurizando e uniformizando, perdendo as características regionais. A comida mineira está um tanto anódina, carne de porco deve ser imolada nos altares das smartfits dessa vida e expulsa pelos estímulos causados pelos crossfits incapacitantes. Uma pena...Mesmo o pão de queijo, talvez pelo custo do queijo mineiro verdadeiro, campeão mundial, regional, sulamericado e um faminto etc. Para onde vamos?

"-O feijão tropeiro não tem bacon?"

"-Bacon não é saudável!!!"



Um diálogo que jamais imaginei ser possível no sudoeste mineiro, onde se criavam as pequenas figuras humanas em fase de crescimento, sob a orientação familiar(também chamadas de crianças), com carne de porco de lata, mergulhada em gordura. O mundo deforma os tempos reformados...Quem reformará os crimes dos homens? Scalinger não sofreu com um pudim de leite sem lactose...

O tempora...o mores!!!



terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Bondade e o show midiático

Domingo, marasmo quase distópico, impossível sobreviver sem sequelas...calor, calor e um pouco mais de calor.... desabituado, meu corpo pede sombra e sossego. Ventilador, ligo a TV e vejo um show de horrores, a exploração do ser humano disfarçada de bondade, assistência e amor. Não dá, eu havia preparado um almoço e meu estômago não resistiria ao que a TV (ia escrever o tubo, mas nesses tempos de TVs digitais e smarts, quem entenderia???) mostrava. Não poderia jamais perder drinques preparados pelo Alberto, então desligue-se a TV!

Rebobine-se a fita, ventilador direto e o trem das elocubrações se põe em marcha....

A questão do nariz....

Sandor Marai, em "O Jantar" (acho que é este o título), fala da caridade gorda, da compaixão fácil, que não exige esforço algum para ser feita, como enfiar a mão no bolso e jogar uma moeda na caixinha de chicletes do garoto ou do aleijão mais próximo. Esta caridade tem valor zero...Como a Fila da Miséria, presente na ALERJ pelos ultimos trinta anos, vinte e cinco dos quais sob meu testemunho; como o milhão distribuído ao pobre que usa seus últimos trocados para pintar o cabelo, pois vai aparecer na TV, mas como o dinheiro é pouco, a qualidade da pintura acompanha...

Tudo uma armadilha, mas o amor....

Mas, definitiva mesmo, é a mestre de todos nós, Hannah Arendt, que define, definitivamente: (ah!Uma aliteração provocada e óbvia!!Vai ficar!):

"A bondade, para se afirmar como tal, deve ser genuína. Sermos bons, porque está na época em que é de bom tom mostrarmos que somos bons, é a mais absoluta hipocrisia. Sejamos bons sim, mas continuamente. Sejamos bons sim, mas não para mostrarmos aos outros que somos bons. A maior, e a verdadeira bondade, é aquela que se pratica sem alaridos, sinal de que a bondade é algo que deve ser normal e frequente, e não uma festa sempre que acontece - senão estamos exatamente a denunciar que só somos bons de vez em quando."

Bondade e Sabedoria devem ser inocentes, Hannah Arendt. O mundo Insta e Face sequer tangenciam a vida real...

Quem sou eu para discutir!!!

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Conhecemos a América do Sul? Conhecemos a produção cultural dos países vizinhos? Não vale os de sempre, que estão por aí há 30, 40 anos....
 A poesia uruguaia tem coisas lindas, mas, para terem uma ideia, não consegui o original do poema. Achando conseguir, edito e coloco aqui.

Para quem quiser conhecer mais um pouco, ou um pouco, da produção poética uruguais, veja https://revistaacrobata.com.br/tag/poesia-uruguaia/
Da internet, sem o autor.

El agujero”, de Juan Pablo Pedemonte

O buraco

Teria que escavar os parágrafos do mar
para dar com o tempo;
esquadrinhar em sua fossa ou procurar
o ossatura do vento
nas escrituras profanas do esquecimento.
Ou reler, ao menos, as paisagens do outono,
onde sempre há um golpe de pássaro,
uma página de folhas caducas e perdidas.
Ou ir direto à ferida do relojoeiro,
a suas noites de parafuso e ferrugem,
até as doze e meia da dor animal.
Escavar até entrar no buraco
Ou não sair
nunca.
da água das agulhas.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Modernidade atrasada


Nesta época de acordos espúrios, votações fantasmas, ministérios pessoais, relato uma "Cantiga do Ódio", do poeta português Carlos de Oliveira. A capacidade de indignar-se não pode se perder na inação. Pelo menos, não vote nos mesmos de sempre!!

"O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir à servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?"

(no livro Mãe Pobre)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Gonçalo M. Tavares

O livro

De manhã, quando passei à frente da loja
o cão ladrou
e só não me atacou com raiva porque a corrente de ferro
o impediu.
Ao fim da tarde,
depois de ler em voz baixa poemas numa cadeira preguiçosa do jardim
regressei pelo mesmo caminho
e o cão não me ladrou porque estava morto,
e as moscas e o ar já haviam percebido
a diferença entre um cadáver e o sono.
Ensinam-me a piedade e a compaixão
mas que posso fazer se tenho um corpo?
A minha primeira imagem foi pensar em
pontapeá-lo, a ele e às moscas, e gritar:
Venci-te.
Continuei o caminho,
o livro de poesia debaixo do braço.
Só mais tarde pensei ao entrar em casa:
não deve ser bom ter ainda a corrente
de ferro em redor do pescoço
depois de morto.
E ao sentir a minha memória lembrar-se do coração,
esbocei um sorriso, satisfeito.
Esta alegria foi momentânea,
olhei à volta:
tinha perdido o livro de poesia.


Poema "O Livro" de Gonçalo M. Tavares, português, um gênio. Diversos livros, o mais premiado é o Uma Viagem à Índia, mas Jerusalém é muito bom também.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Bruna Berber

Dos novos poetas, a minha preferida...gosto demais, mas acho que deveria ser proibido escrever tão bem sendo tão novinha...


romance em doze linhas

quanto falta pra gente se ver hoje
quanto falta pra gente se ver logo
quanto falta pra gente se ver todo dia
quanto falta pra gente se ver pra sempre
quanto falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto falta pra gente se ver às vezes
quanto falta pra gente se ver cada vez menos
quanto falta pra gente não querer se ver
quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto falta pra gente se ver e fingiu que não se viu
quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Sophia!!"

Quando
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.


Sophia de Mello Breyner Andresen, minha poeta favorita, desde muito!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Tiago Nené

Nossas caravelas nunca partem para Portugal como destino, mas sim como porto. Precisamos rever isto, fazer de Portugal o pai generoso que tudo nos deu,embora tenha tirado mais do que devia. Amo-te,Portugal, com o ódio dos filhos.

Por falar nisso, o poema do Tiago Nené para o filho é de doer.

CARTA AO FILHO

filho, já não há sangue do meu correndo nas tuas veias,
há uma humidade opaca nesta ferida,
sinto-me um sopro enchendo a fissura da rocha que sou;
filho, havia ainda um último fósforo, uma dúvida
mais transparente que o ar,
a única que não pode haver entre um pai e um filho,
uma árvore ardendo no meu amor;
filho, hoje o teu rosto parecido com o meu
perdeu os pilares que seguravam as nossas parecenças
e toda a respiração se desmoronou;
filho, meu único filho, perdoa-me hoje
o que sinto de ontem, um desamor injusto e selvagem,
cravado na memória, retroactivo;
o teu pai

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Poesia

A ideia é de postar sempre poesias por aqui, duas a três por semana. Começando 2025 com uma beleza premonitória:

"Para você, que é emocionado"

Sem fingir algo a mais.
Sem dizer que quer, sem querer.
Sem despertar propositalmente expectativas
que não pretende cumprir.
Ser pouco, se só puder ser pouco.
Ser muito, se realmente tiver muito para dar.
É mais do que responsabilidade afetiva,
é bondade.


“Pra Você Que É Emocionado” (Academia, 2024), de Victor Fernandes

2025, A Missão

De verdade, pretendo manter o blog, já que não quero continuar com as redes sociais que não forem do Clube Secretário.
2024 nao vai deixar saudades, vamos lutar para que 2025 seja digno de figurar nos anais das histórias de vida de cada um.

domingo, 26 de novembro de 2023

Um fósforo frio

 AH! estou me sentindo um "sobrevivente de mim mesmo, um fósforo frio...!. Dias de chuva, sem sol, tristeza escorrendo pelos olhos, fica difícil entender e tentar aceitar o que acontece nesse país. 



2023 não foi legal comigo, perdi tantos amigos queridos que a sensação é de ter embarcado em um navio sem tripulação, sem destino, sem companhia, sem nada... e a tempestade está logo ali. Fazer o quê?Caminhar, ainda que claudicante, é o que nos resta, é o que resta, é o que me resta. Não é fácil!



segunda-feira, 17 de julho de 2023

Aniversário

Passou o aniversário, né? Agradeço os votos, os abraços, as (poucas) lembranças. Sem clima, though. Meu estado de espírito está no poema "aniversário", de Álvaro de Campos, também conhecido como Fernando Pessoa, etc e tal. Não quero parecer ingrato, só o clima que nao era de festejos...

 Aniversário

 No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, O que fui de coração e parentesco. O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino, O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui… A que distância!… (Nem o acho… ) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes… O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), O que eu sou hoje é terem vendido a casa, É terem morrido todos, É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio… No tempo em que festejavam o dia dos meus anos … Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, Por uma viagem metafísica e carnal, Com uma dualidade de eu para mim… Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui… A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . . Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! … O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

domingo, 9 de julho de 2023

Mau, péssimo humor

 Repassando os posts, vejo que o judiciário brasileiro (minúsculas e medo, agora que falar mal é crime!) sempre foi uma pedra no sapato dos minimamente consequentes.

o único motivo real para ir em frente

Vc acredita no judiciário (minúsculas e pavor de um dia precisar me enfronhar nos meandros jurídicos)?? Caso positivo, tente me explicar as razões nos comentários. Não vale "ruim com ele, pior sem ele"!!

A guerra movida ao Inominável (Bozo, para quem chegou de Marte ontem e não deu tempo de ligar a TV), o descrédito lançado à Lava-Jato, a bajulação ao poderoso do momento, tudo isso me deixa desgostoso e suspechoso... 

Uma colagem 

Lula, o Relativo, tornou-se um exemplo para todas as crianças "desse" país e, num assombro que só surpreende o Curupira, Dona Janja tenta ocupar os holofotes a qualquer pretexto, esquecendo-se daquele ensinamento básico da Rita Cadilac: "o palco é de Painho". (Chacrinha, para quem acha que o mundo começou em 2011!).

Não podíamos ser mais felizes

2023, francamente, vai embora me devendo, a menos que providencie algo tão positivo que o negativo vai gerar uma corrente tão forte que destruíra todo medo e inconsequência.

Um ano triste, muito triste. 

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Em frente...

Nesse tempo ausente, muitas coisas....aconteceram, me aconteceram, aconteceram pelaí.... mas continuei fã da poesia, principalmente a poesia portuguesa, nova e de sempre.

Miguel Torga, um dos últimos post, escreveu o poema abaixo. Português, é um pseudônimo. Mas se ele queria ser conhecido assim, por que não respeitar. Googlem aí, vcs descobridores das verdades escondidas nos desejos recolhidos.

E eu vou em frente, a alternativa não interessa!!(no momento, bien sûr!).

Dies Irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!


Foto minha, o que se deduz pela qualidade impecável. Estudo para
um linocut, ainda em produção.

 

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Renovação


Retomando o blog, após todo esse tempo.

Tudo tão diferente que parece outra pessoa, outro mundo.

E tudo tão igual que dói...

domingo, 17 de novembro de 2019

Poesia Portuguesa

A nova poesia portuguesa é uma desconhecida, pelo menos por aqui, na terra de Cabral. Ou a terra de Cabral seria Portugal? Na Índia, ele é conhecido como o Carniceiro de Bombaim, o que nao é, como parece, nada bom!!

Miguel Torga, fundador do Presencismo, morreu em 1995. Sua obr não.

SÚPLICA

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Liberdade
— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Nós e o judiciário brasileiro.... uma relação desgastada!

Lúcio Mauro, meu ser pensante, fica abismado com a valorização do discurso do ministro Luis Barroso! Parece que o poder de análise das pessoas anda prejudicado pela necessidade de se adotar um postura "política"!!! Estar vivo já é uma postura política, estar vivo no Brasil já é uma atitude extremista (e extrema) e estar vivo no Brasil e no Rio de Janeiro significam que, sob algum aspecto, vc é um vencedor.

Como assim "os pobres não corrompem"?? Não corrompem pelo óbvio, faltam-lhes meios para corromper. É preciso discutir isso?
Que tal discutir a facilidade de se corromper os pobres e miseráveis?? Trabalhei 27 anos na ALERJ e a fila das misérias sempre esteve lá, de segunda a quinta . Um carguinho, uma transferência de escola, uma vaga em hospital, uma creche para a netinha, um emprego perto de casa, um aparelho para o deficiente.... e por aí vai. A discussão deveria ser centralizada nas razões porque somos um país com tantos miseráveis.
Vc ter sucesso na vida, planejar sua velhice, ter acumulado bens (ativos é o termo, né?), transformam vc em um marginal, um explorador em potencial (mesmo tendo sido empregado a vida toda!!!), alguém que se vendeu ou que "se deu bem", a troco de, sabe Deus, alguma coisa. Um corrupto ou corruptor, no less...
Um discurso desses desvaloriza o trabalho, o planejamento, a disposição para o sacrifício e para o comedimento!! As oportunidades, se não iguais, deveriam ser aproximadas. Mas o fato inegável é que alguns conseguem aproveitá-las e outros não.
Pobreza nunca foi e espero que nunca seja uma qualidade. Também não é defeito. É uma circunstância contra a qual é possível lutar. Só é preciso que os meios de luta sejam garantidos para todos. E que os privilégios (uma seara na qual o judiciário -minúsculas, por favor!- é pródigo) sejam reduzidos ao máximo. Uma boa forma de começar! Ou estar coberto de privilégios não é uma forma de corrupção???




O texto acima eu publiquei no Facebook, com as restrições que um espaço mais aberto exige. Mas eu complementaria sugerindo a alguém que esteja lendo isso que consultasse as Leis da  Magistratura, estadual e federal, e vejam a quantidade absurda dos privilégios que o pessoal do judiciário- minúsculas, por favor- usufrui.
Ficar cagando regras quando tudo e todos colaboram com o bem bom de todas as escalas desse poder podre, fica muito fácil. Quero ver é abrirem mão de um, apenas um, dos inúmeros privilegios que gozam. Duvi-d-ó-dó!!