quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Clarice Lispector

Meio batido, é? Mas fala do que eu falei na minha mensagem de final de ano, com o charme que me falta. Não custa lembrar: é sempre bom lembrar!


Aprendendo a Viver

Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.

Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas «melhore o momento presente», exclamava. E acrescentava: «Estamos vivos agora.» E comentava com desgosto: «Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar.»
A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.

Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.
Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam — ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos — ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.
Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. «É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber.»
E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: «Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?» Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.

Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: «A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos.» É verdade: mesmo as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois «o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino».

E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. «Creio», escreveu, «que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força.» E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas — e quem de nós não faz isso? —, como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Permanência e distância


Nesta época, final de ano, Natal, sentimentos à flor da pele, exemplos comoventes, cartinhas emocionantes, as pessoas que gostam de pensar, geralmente, usam essa torrente de sentimentos como estímulo para pensar sobre a permanência e os valores que dão sentido à vida.



Viver é simples, né? Respirar, comer, dormir, acordar, um ciclo a que vamos acrescentando os marcos que distinguem seus períodos. Acho que a rapidez com que os anos passam para as pessoas que vão envelhecendo tem a ver com a ausência de marcos, novidades no ano de cada um. Cada vez mais, viu-se de tudo, ouviu-se mais ainda e os exemplos estão aí para (não) ajudar o tempo a passar.

Zygmunt Bauman fala da liquidez das coisas, da fluidez com que tudo escorre entre os dedos, da impermanência, pouca duração de tudo que acontece. E se nos concentramos nos que realmente conta para cada um e para si? E se transformamos o egoísmo em algo positivo, em um sentimento capaz de provocar simpatia com o outro pelas consequências de sua interação na vida de cada um?

Zaratustra estabelece que há felicidade para todos, mas não a mesma felicidade para cada um. E se a buscarmos na permanência do que nos gera o sentimento de estar feliz, se conseguirmos enxergar, em nós mesmos, aquilo que precisamos para que possamos reconhecer no outro um componente da felicidade pessoal? É mais fácil falar do que fazer, não é?


Então, (influência das minhas constantes idas a São Paulo, esse "Então...), luto pela permanência das coisas que me são caras, para que eu possa ajudar alguém a manter as coisas que lhe são tão caras quanto.

A amizade de minha irmã, querida Carolina, que parece vem se reforçando com o passar do tempo. Falta-nos a intimidade, mas não o amor que é preciso para que consigamos pensar em fazer um ao outro felizes!

O pessoal de São Paulo, não vou relacionar os nomes pois teria pavor de ter esquecido alguém e não conseguiria fechar esta página, mas que personalizo no Paulo Mesquita e na Déboha Cifu, um pessoal que reafirma, a cada ocasião, o valor da amizade e o significado de uma intimidade respeitosa.

A convivência, na maior parte do tempo, pacífica com os problemas do dia-a-dia de uma cidade tão cheia de problemas como o Rio! As amizades virtuais, tão valiosas como qualquer outra, que personifico no Carlucho, que ajudam a dar sentido a este excesso de informação e escassez de memória...

Também as amizades da vida real, palpável, aqui fora...essas são o sal da terra, ajudam todo dia que se veja que nada é tão complicado quanto parece, que fazer o bem pode ser tão prazeroso quanto conviver com os poderosos (em qualquer sentido), não é Ana? que ser enrolado pode ser uma virtude, não é Tereza? e são tantos e tão variados que é preciso a amizade que nos une para que consigamos nos ver como indivíduos.

E, sobretudo, o Alberto, que ajuda a dar sentido a todo este universo de estranhezas e disparidades, de emoções e alheamentos, mas que é o companheiro que se precisa para atravessar alguns períodos da vida em que tudo parece mais difícil do que deveria ser. Ser grato não é a questão aqui, já que tudo que temos em comum é isto mesmo: tudo o que temos em comum! Conseguimos, à custa de sangue, suor e lágrimas, transformar o sonho de muitos em nossa realidade. Zé Virola, um chatão, é essencial para que tudo faça sentido.

Vamos todos para 2014, em busca de novas permanências e procurando forças para resistir à ausência do que não pode ser permanente, mas que gostaríamos que o fosse. Antes de lamentar a efemeridade das coisas que importam, lutemos pela sua presença constante em nossas vidas.

E, claro, não poderia faltar o componente do charme e beleza que acrescenta, como uma rosa é um supérfluo que nos foi ofertado pela entidade superior,  não poderia faltar o Paquinho....


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Bondade

Natal, né? Época em que a compaixão, a bondade deveriam estar mais à tona, mas em algum lugar da caminhada, perdeu-se o senso. Nada muito cristão, principalmente se não der IBOPE!

Sandor Marai, em "O Jantar" (acho que é este o título), fala da caridade gorda, da compaixão fácil, que não exige esforço algum para ser feita, como enfiar a mão no bolso e jogar uma moeda na caixinha de chicletes do garoto ou do aleijão mais próximo. Esta caridade tem valor zero...

Mas, definitiva mesmo, é a mestre de todos nós, Hannah Arendt, que define, definitivamente: (ah!Uma aliteração provocada e óbvia!!Vai ficar!)

"A bondade, para se afirmar como tal, deve ser genuína. Sermos bons, porque está na época em que é de bom tom mostrarmos que somos bons, é a mais absoluta hipocrisia. Sejamos bons sim, mas continuamente. Sejamos bons sim, mas não para mostrarmos aos outros que somos bons. A maior, e a verdadeira bondade, é aquela que se pratica sem alaridos, sinal de que a bondade é algo que deve ser normal e frequente, e não uma festa sempre que acontece - senão estamos exatamente a denunciar que só somos bons de vez em quando."

Bondade e Sabedoria devem ser inocentes, Hannah Arendt

Quem sou eu para discutir!!!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A solidão compartilhada

Que coisa! Sentir-se sozinho em meio a tanta gente, sentir-se só no meio da festa, procurar a razão justa para se estar ali e sentir que a resposta está em algum lugar, fora de si mesmo...
Não falo de mim, tive sorte suficiente na vida para ter um companheiro que está presente em todas as horas, que se esforça para acompanhar minhas "mood waves". Fazer o quê? desejo que cada um tenha a chance de reconhecer quem vai preencher o espaço que cada um coloca disponível em sua vida. Encontrar, talvez todos encontrem. A grande questão é saber reconhecer, é notar que "É esse!!!" ou "É essa!!"...
No mais, um poema sobre a solidão do português Antonio Feijó:



Hino à SolidãoDiz-se que a solidão torna a vida um deserto; 
Mas quem sabe viver com a sua alma nunca 
Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo 
                                                                [aberto 
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca. 

Mundo vasto que mil existências povoam: 
Imagens, concepções, formas do sentimento, 
— Sonhos puros que nele em beleza revoam 
E ficam a brilhar, sóis do seu firmamento. 

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra 
Esse fecundo chão onde se esconde e medra 
A semente que vai germinar na Palavra, 
Cantar no Som, flores na Cor, sorrir na Pedra! 

Basta que certa luz de seus raios aqueça 
A semente que jaz na sua leiva escondida, 
Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça, 
De perfumes enchendo as estradas da Vida. 

Sei que embora essa luz nem para todos tenha 
O mesmo brilho, o mesmo impulso criador, 
Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha, 
Vivendo como um deus no seu mundo interior. 

E que mundo sublime, esse em que ele se agita! 
Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou, 
E em cuja criação o seu sangue palpita, 
Que não há deus estranho aos orbes que formou. 

Nem lutas, nem paixões: ideais serenidades 
Em que o Tempo se esvai sob o encanto da Hora... 
O passado e o porvir são ânsias e saudades: 
Só no instante que passa a plenitude mora. 

Sombra crepuscular, que a Noite não atinge, 
Nem a Aurora desfaz: rosicler e luar, 
Meia tinta em que a Alma abre os lábios de Esfinge, 
E o seu mistério ensina a quem sabe escutar. 

Mas então, inundando essa penumbra doce, 
De não sei que sublime esplendor sideral, 
Como se a emanação dum ser divino fosse, 
Deixa no nosso olhar um reflexo imortal. 

Na vertigem que a vida exalta e desvaria, 
Pára alguém para ouvir um coração que bate 
No seio mais formoso, o olhar que se extasia 
Vê o mundo que nele em ânsias se debate? 

É só na solidão que a alma se revela, 
Como uma flor nocturna as pétalas abrindo, 
A uma luz, que é talvez o clarão duma estrela, 
Talvez o olhar de Deus, de astro em astro caindo... 

E dessa luz, a flor sem forma, há pouco obscura, 
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza, 
Como das mãos do artista, animando a escultura, 
O mármore recebe a sua alma — a Beleza. 

Se sofrer é pensar, na paz do isolamento, 
Como dum cálix cheio o líquido extravasa, 
A Dor, que a Alma empolgou, transborda em 
                                                          [pensamento, 
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se 
                                                                   [abrasa. 

Como a montanha de oiro, a Alma, em seu 
                                                             [mistério, 
À superfície nunca o seu teor revela; 
Só depois de sondado e fundido o minério 
Se conhece a riqueza acumulada nela. 

Corações que a Existência em tumulto arrebata! 
Esse oiro só se extrai do minério candente, 
No silêncio, na paz, na quietação abstracta, 
Das estrelas do céu sob o olhar indulgente... 

António Feijó, in 'Sol de Inverno'

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Mais um, ou uma...

Sempre a encontrávamos de supetão. Os encontros marcados não se realizavam, por motivos que podem parecer até esotéricos. Mas, de repente, avolumando o horizonte, lá vinha Dinorah e seu Uísque ( um cachorro, mas que provocava nela o mesmo efeito que o licor escocês nos provoca).
Sempre uma palavra amiga, sempre uma lembrança gentil, uma lembrancinha, uma história amiga ou amável para contar. Um neném que ia chegar, o estudioso neto, as filhas  de quem se orgulhava tanto que os olhos chegavam a marejar...
E nós, sacanas com ela, arrumávamos os pretendentes mais improváveis, promovíamos romances irrealizáveis, inventávamos histórias que nunca aconteceriam, mas que nos divertiam por horas. Nosso chá não se realizou, não houve tempo para a apresentação "daquele" pretendente que faria com que um sorriso maroto percorresse seu rosto.
A preocupação com os que estavam à sua volta deveria tornar-se matéria obrigatória no ensino fundamental, não a caridade gorda e indolente, por que fácil,  de que falou Sandor Márai, mas a verdadeira, em que o amor genuíno pelo semelhante, a compaixão pelo estado dos menos afortunados era real e exigia uma urgente solução, de alguma forma...
Conheci duas das filhas, Viviane e Isabel, dois retratos pintados pela artista capaz de transmitir bons sentimentos, boas vibrações, atenção pelos amigos..dois amores, que, certamente, continuarão a espelhar a mãe neste mundo tão cheio de exemplos que deveriam ser esquecidos.
Não estou gostando, a velhice tem me trazido a perda de queridos à alarmante média de um por ano!! E eu gosto de tantos que são tão poucos!!! E gosto tanto de tão poucos, que são tantos"!!! E agora menos uma, que era tantas...que valia por muitas.
Tchau, Dinorah, certamente o bem que você espalhava continua por aí, viajando por este mundo em busca de outro receptáculo digno de um sentimento tão verdadeiro.

Não tenho uma foto sequer da Dinorah,  é certo isso? Então, falo de amor....é a mesma coisa!

domingo, 17 de novembro de 2013

Visões do mundo


Olhando a foto acima, a indiferença estúpida das garotas ao lado do senhor sem teto, minha intenção de postar algo de Saigyö, o grande mestre japonês do tanka foi-se...

Há tantos exemplos semelhantes que usar essas moças, inocentes de sua ignorância e soberba, como mostra de uma situação do mundo atual não chegar a parecer justo. Mas o mundo não é justo, não é mesmo?

Mudo de Saigyö, mudo o sentimento que me move neste momento:

"Isto será bom:
Meu corpo pode debulhar-se
em lago de lágrimas,
mas nele meu inalterado coração
à lua dará adequado alojamento"

Na profunda em sua plácida sapiência tradução de Nissim Cohen.

"De todos os tipos do orgulho humano, o que recusa admitir a existência daquilo que não compreende é, talvez, o mais elaborado e ,provavelmente, o mais obtuso". Pode parecer que estou falando da bancada evangélica, mas queria me referir a todo uma classe social que simplesmente, escolheu ignorar o seu entorno.

Parabéns, gente boa!!

domingo, 3 de novembro de 2013

Poesia russa

Marina Tzvietáieva

A Carta

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta
Pedaço de papel
com uma borda
de cola. Dentro - uma palavra
Apenas. Isso é tudo.

Assim não se espera o bem.
Assim se espera - o fim:
Salva de soldados,
No peito - três quartos
De chumbo. Céu Vermelho.
É só. Isso é tudo.

Felicidade? E a idade?
A flor - floriu.
Quadrado do pátio:
bocas de fuzil.

(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
viver é o bastante!!

Quadrado da carta.

Como vcs já notaram, sou fã da poesia russa!Uma coisa, um poder de concisão, um derramamento de paixões que fazem a cabeça dar voltas. Tzvietáieva teve uma vida que nem Shakeaspere ousaria imaginar: paixões, sumiços, morte de filhos por inanição (fome, gente!), campos de recuperação do stanilismo, uma vida amorosa movimentada, Pasternak (de Dr Zhivago) pensou em se separar para ir viver com ela. Mas uma vida atribulada não faz uma poesia de talento, não é verdade? Senão teríamos muito mais gente capaz de escrever: "Porém, enquanto houver saliva/Todo o país está em armas!" (a respeito da invasão da Tchecoslováquia).
Não ouvimos falar muito dela, pela razão mais óbvia: ela não se perfilou com o movimento de esquerda que deu sustentação a Stalin. Era a morte. Foi a morte: matou-se! Russa não fosse....

O poema acima foi traduzido por Augusto de Campos, um dos Campos Brothers, que eram gênios, compostos unicamente de cérebro! O livro é o Poesia da recusa, uma lindeza, que recomendo, e olhem que eu não costumo recomendar livros aqui.


Na página do FB (UM poema por dia) postei o poema acima e queria postar este outro. As regras da página não permitem, então apelo para o blog...rs.

Tentativa de ciúme

Como vai você com a outra?
Fácil, não é - Um golpe de remo!!-
E de pronto a linha da costa
Se foi e você já em se lembra

De mim, ilha flutuante.
(No céu, por certo, não no mar)!
Almas!Almas! - antes amar
como irmãs, não como amantes!!

Como vai você com a mulher
Comum? Sem nada de divino?
Sem soberana, sem sequer 
Um trono (você foi o assassino).

Como vai, meu bem?Tudo a gosto?
E o dia a dia - sempre igual?
Como você se arranja com o imposto
Da banalidade imortal?

"Mil sobressaltos, incertezas-
Basta!!Vou arrumar um teto!"
Como vai, com quem quer que seja -
O eleito pelo meu afeto?

A comida é melhor, mais familiar?
Diga a verdade. Como vai 
Você com a imitação vulgar - 
Você, que subiu o Sinai?

Como é viver com uma estranha?
Você a ama? Nâo disfarce!
O chicote de Zeus da vergonha
Nenhuma vez lhe zurze a face?

E a saúde, vai bem? Que tal
A vida - uma canção? A ferida
da Consciência imortal
como a suporta, meu querido?

Como vai você com o adereço
de feira? A taxa é muito cara?
Como é aspirar o pó de gesso
Depois do mármor de Carrara?

(Deus talhado em barro, termina
em pedaços) Como é o convíveo
com a milionésima da fila
Para quem já conheceu Lilith?

As novidades da feira
Se acabaram? Farto de portentos,
Como é a vida corriqueira
Com a mulher terrena, sem sexto

Sentido?
Vamos, tudo cor de rosa? Ou não?Aí, nesse oco
sem fundo, amor, como vai? Pior ou
igual a mim com o outro?

em Poesia da Recusa, p; 156 trad. de Augusto de Campos

Perdoem-me as senhoras presentes, mas PQP!!!! Chamar a "outra" de adereço de feira, compará-la com gesso, sendo mármore de Carrara, não dá!!