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quinta-feira, 13 de março de 2025

Orides e o Carnaval

 Que coisa!! Pós-carnaval, parece que tudo fica mais fácil. Como não participo dessa alegria compulsória, fico em casa, aproveito para colocar a leitura em dia, trabalho no atelier (as colagens estão por aí!) e me divirto pensando.
Pensando que somos um país condenado ao fracasso...não é possível que essa sequência de fatos esdrúxulos seja natural, alguém lá em cima colocou um pano de prato no futuro do Brasil...

Não, eu publiquei nada; então, publico hoje uma das minhas poetas favoritas, a quem admiro muito e sinto que não seja conhecidíssima e amada por todos que gostam de sofrer em conjunto.Claro, estou falando da Orides Fontella, cuja obra completa foi lançada há pouco tempo. Dela, pode-se ler:


FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

E, para quem gosta:



O GATO

Na casa
inefavelmente
circulam olhos
de ouro

vibre ( em ouro) a
volúpia
o escuro tenso
vulto do deus sutil
indecifrado

na casa
o imperecível mito
se aconchega

quente (macio) ei-lo
em nossos braços:
visitante de um tempo sacro (ou de um não tempo).

Quem escreve "toda palavra é crueldade" tem de estar na prateleira mais alta.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Conhecemos a América do Sul? Conhecemos a produção cultural dos países vizinhos? Não vale os de sempre, que estão por aí há 30, 40 anos....
 A poesia uruguaia tem coisas lindas, mas, para terem uma ideia, não consegui o original do poema. Achando conseguir, edito e coloco aqui.

Para quem quiser conhecer mais um pouco, ou um pouco, da produção poética uruguais, veja https://revistaacrobata.com.br/tag/poesia-uruguaia/
Da internet, sem o autor.

El agujero”, de Juan Pablo Pedemonte

O buraco

Teria que escavar os parágrafos do mar
para dar com o tempo;
esquadrinhar em sua fossa ou procurar
o ossatura do vento
nas escrituras profanas do esquecimento.
Ou reler, ao menos, as paisagens do outono,
onde sempre há um golpe de pássaro,
uma página de folhas caducas e perdidas.
Ou ir direto à ferida do relojoeiro,
a suas noites de parafuso e ferrugem,
até as doze e meia da dor animal.
Escavar até entrar no buraco
Ou não sair
nunca.
da água das agulhas.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Modernidade atrasada


Nesta época de acordos espúrios, votações fantasmas, ministérios pessoais, relato uma "Cantiga do Ódio", do poeta português Carlos de Oliveira. A capacidade de indignar-se não pode se perder na inação. Pelo menos, não vote nos mesmos de sempre!!

"O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir à servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?"

(no livro Mãe Pobre)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Gonçalo M. Tavares

O livro

De manhã, quando passei à frente da loja
o cão ladrou
e só não me atacou com raiva porque a corrente de ferro
o impediu.
Ao fim da tarde,
depois de ler em voz baixa poemas numa cadeira preguiçosa do jardim
regressei pelo mesmo caminho
e o cão não me ladrou porque estava morto,
e as moscas e o ar já haviam percebido
a diferença entre um cadáver e o sono.
Ensinam-me a piedade e a compaixão
mas que posso fazer se tenho um corpo?
A minha primeira imagem foi pensar em
pontapeá-lo, a ele e às moscas, e gritar:
Venci-te.
Continuei o caminho,
o livro de poesia debaixo do braço.
Só mais tarde pensei ao entrar em casa:
não deve ser bom ter ainda a corrente
de ferro em redor do pescoço
depois de morto.
E ao sentir a minha memória lembrar-se do coração,
esbocei um sorriso, satisfeito.
Esta alegria foi momentânea,
olhei à volta:
tinha perdido o livro de poesia.


Poema "O Livro" de Gonçalo M. Tavares, português, um gênio. Diversos livros, o mais premiado é o Uma Viagem à Índia, mas Jerusalém é muito bom também.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Poesia

A ideia é de postar sempre poesias por aqui, duas a três por semana. Começando 2025 com uma beleza premonitória:

"Para você, que é emocionado"

Sem fingir algo a mais.
Sem dizer que quer, sem querer.
Sem despertar propositalmente expectativas
que não pretende cumprir.
Ser pouco, se só puder ser pouco.
Ser muito, se realmente tiver muito para dar.
É mais do que responsabilidade afetiva,
é bondade.


“Pra Você Que É Emocionado” (Academia, 2024), de Victor Fernandes

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Poesia nesta hora?

É o melhor remédio....
O livro Antologia da Poesia Erótica Brasileira traz coisas ótimas, poetas nem tão conhecidos, além dos de sempre.
O poema abaixo é de Augusto Meyer, gaúcho que trabalhou à beça. Pouco conhecido, uma pena...

Não consegui descobrir a autoria da colagem...


À Maneira de Mim Mesmo

Bonita.
Me dá o teu corpo de álamo novo
e o ninho vermelho do teu beijo.

Por causa da sombra dos cílios, longa,
por causa do corpo flexível, lindo,
achei a loucura, perdi a cabeça.
Se for caso sério, só mesmo rindo...

Não acho mais graça no livro: raiva!
Pobre cigarro, fuma que fuma.
A tarde murmura um segredo morrente
nas folhas do plátano. Eu platônico?

Bonita, tem pena, tem pena da gente.
Por causa da sombra dos cílios longa
por causa da polpa do lébio morno,
me dá o teu corpo, me dá o teu corpo!

PS.: A alma não quero, me sobra uma!!

em Poemas de Bilu.

domingo, 25 de novembro de 2018

Poesia moderna portuguesa


A imagem pode conter: flor
Colagem de Ana Cristina Pereira, a necessária Hannah23...
Nossas caravelas nunca apontam para Portugal... uma coisa meio edipiana, eu acho, essa recusa em admirar, curtir mesmo,o que vem de Portugal.  Aquela antiga argumentação: "Mas não dá para ver filme português sem legendas"  é, comprovadamente, uma daquelas verdades ofensivas....Portugal precisa vir mais, precisamos ir mais a Portugal, não como um porto, mas como um destino.
A poesia abaixo é de Tiago Nené (os acentos portugueses, gente!). Novinho, tem apenas 36 anos, mas o poema dele para o filho - posto outro dia, não estou no clima!- é um dos poemas mais bonitos dos últimos tempos meus.

Em homenagem a ele, coloquei na playlist uma música do Antonio Azambujo, no disco "Até pensei que fosse minha...", onde ele canta apenas músicas do Chico Buarque de Holanda. Achei digno!( Mas não consegui!!! Ficou só um pedacinho aí embaixo....)

O TERRAMOTO
[a uma pessoa intemporal]

querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,
pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,
pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,
pessoas com instrumentos na terra fértil,
pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio.
os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriam
viram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite,
os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,
os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,
os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,
os que não tinham relógio escaparam ao tempo.
meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,
sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,
espero-te no meu futuro, ainda que ele não seja
o efeito directo de um presente que ainda treme muito.


Apesar do estranhamento da grafia original, é de uma beleza dolorosa. "Sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem!"... que mude tudo, então.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Frank O'Hara

Poeta americano, morreu atropelado por um jipe quando estava, digamos, repousando ao sol na ilha de Fire Island junto com um "amigo" (ah! os eufemismos que os novos tempos nos obrigam!!!). Tem poemas ótimos e péssimas traduções em português, uma delas me fez contatar o tradutor e perguntar o que ele estava pretendendo! Sabe quando o tradutor acha que pode fazer melhor que o autor??? Pois é...
Esse é um dos poemas mais famosos do O'Hara, provavelmente vcs já viram, pelo menos, uma parte dele por aí.
#colagem #mosaíco #retrô #vintage #moderno #popart #estherzancan #coca-cola
Colgem disponível em Urban Arts, sem autoria definida.

Having a Coke with You


is even more fun than going to San Sebastian, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne
or being sick to my stomach on the Travesera de Gracia in Barcelona
partly because in your orange shirt you look like a better happier St. Sebastian
partly because of my love for you, partly because of your love for yoghurt
partly because of the fluorescent orange tulips around the birches
partly because of the secrecy our smiles take on before people and statuary
it is hard to believe when I’m with you that there can be anything as still
as solemn as unpleasantly definitive as statuary when right in front of it
in the warm New York 4 o’clock light we are drifting back and forth
between each other like a tree breathing through its spectacles

and the portrait show seems to have no faces in it at all, just paint
you suddenly wonder why in the world anyone ever did them
                                                                                                              I look
at you and I would rather look at you than all the portraits in the world
except possibly for the Polish Rider occasionally and anyway it’s in the Frick
which thank heavens you haven’t gone to yet so we can go together for the first time
and the fact that you move so beautifully more or less takes care of Futurism
just as at home I never think of the Nude Descending a Staircase or
at a rehearsal a single drawing of Leonardo or Michelangelo that used to wow me
and what good does all the research of the Impressionists do them
when they never got the right person to stand near the tree when the sun sank
or for that matter Marino Marini when he didn’t pick the rider as carefully
as the horse
                               it seems they were all cheated of some marvelous experience
which is not going to go wasted on me which is why I’m telling you about it


Os comentários são abertos, é só escrever....

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sophia, ah! Sophia


Voltamos, eu e a poesia... toda semana, um poema, na língua em que eu conseguir compreendê-lo....
Começo com ela, a Sophia... Uma antologia publicada pela Cia das Letras, média, não recomendo a compra, a menos que vc não tenha nada dela.
Agora, quer investir? A Poesia de Sophia, publicada pela Assírio e Alvim de Portugal... tinha na Travessa, apesar do preço abusivo...
E, sempre que possível, procurarei ilustrar o poema com uma colagem. Depois do workshop com a maravilhosa e necessária Ana Cristina Pereira ( former Hannah 23!), eu estou fissurado em colagem!
Então, vamos lá:


A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, flor, listras e planta
Colagem de Ana Cristina Pereira (Hannah 23).
Eu me perdi

Eu me perdi na sordidez do mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar

sábado, 19 de agosto de 2017

Invictus

O primeiro post do ano, e como eu sou Captain of my soul, não quero nem dizer os motivos para tão prolongada ausência. Espero que vocês concordem com a escolha do poema, o primeiro do ano.

Invictus

Related Poem Content Details

Out of the night that covers me, 
      Black as the pit from pole to pole, 
I thank whatever gods may be 
      For my unconquerable soul. 

In the fell clutch of circumstance 
      I have not winced nor cried aloud. 
Under the bludgeonings of chance 
      My head is bloody, but unbowed. 

Beyond this place of wrath and tears 
      Looms but the Horror of the shade, 
And yet the menace of the years 
      Finds and shall find me unafraid. 

It matters not how strait the gate, 
      How charged with punishments the scroll, 
I am the master of my fate, 
      I am the captain of my soul. 

domingo, 27 de novembro de 2016

Álvaro de Pessoa, Campos.

Era para ter sido na quarta, esqueci de programar! Então, fica para domingo, sem diálogos absorventes, que tenho que preparar o material para o bazar do dia 3, próximo sábado. Há perdão? Sempre há, principalmente quando se acredita. Vide Fidel, um santo para os que nele acreditam. Morreu, não virou anjo em vida, virará santo? É esperar....
Enquanto isso, vamos nos entranhando com o Álvaro, uma pessoa estranha.

Ego", de Marcelo Sahea,


Tabacaria


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, in "Poemas"


Dá para pensar uma eternidade, então sugiro que pensem até o próximo domingo.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Paulo Mendes Campos

Qurta-feira, né? Dia de poesia.

Não é um poema, quer dizer, formalmente, não é. Mas é!

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

(Paulo Mendes Campos in: O amor acaba: crônicas líricas e existenciais. 2a ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 21-22).

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Adriana Calcanhoto

Saiu o livro Pra que é que serve uma canção como essa?, com as canções de Adriana Calcanhoto, organizados por Eucanaã Ferraz. Uma delícia!

Nesses tempos de Nobel para compositor e letrista, recomendo ainda o Caderno de Poesias, de Maria Bethânia, outra delícia! Para quem não se dá bem com os livros, tem o DVD, no mesmo sítio aí em cima.

Depois de definir os cariocas com precisão cirúrgica, Adriana visitou Lupicínio, em um CD que não consegue ficar quieto por aqui. Recomendo também.

E, para recordar do que a moça é capaz, a letra de Vambora:

Entre por essa porta agora
e diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida
Vem vambora
que o que você demora
é o que o tempo leva

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz

Ainda tem o seu perfume pela casa
ainda tem você na sala
porque meu coração dispara
quando tem o seu cheiro
dentro de um livro
N"A cinza das horas.


A referência a Ferreira Gullar, (um gato!!! só quem tem mais de 50 entenderá essa!) não é gratuita!
Clique aqui e veja!

terça-feira, 28 de junho de 2016

Um anjo...

Menotti Del Picchia, poeta...profícuo, mil coisas... fundou o grupo A Anta. Hoje, seria motivo de risos. Esse poema, acho lindo e muito tocante. Aproveitem.



O VOO

Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento
desabam no abismo
que sabes tu do fim ?
Se temes que o teu mistério seja uma noite,
enche-a de estrelas.
Conserva a ilusão de que o teu vôo te leva
sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro,
as canções que tens na garganta.
Canta, canta para conservar uma ilusão
de festa e vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste,
não és mais que um vôo no tempo.
Rumo aos céus ? O que importa a rota ?
Voa e canta,
enquanto resistirem as tuas asas.

Versão que anda pela Internet, então não sei se está tudo como deve.  Menotti escreveu também Juca Mulato, talvez fosse hoje demonizado pelos patrulhinhas deplantão.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Murilo Mendes, melhor que M&M



Uma edição linda, da finada Cosac, com fotos, ensaios, uma encadernação diferenciada. Se você gosta do gênero,  provavelmente já tem. Dados, biografia, tem aos montes pela rede, é só se interessar. Aqui, um poema dele que eu acho divino, maravilhoso. Espero que vc também.

Poema Dialético

I

Todas as coisas ainda se encontram em esboço
Tudo vive em transformação
Mas o universo marcha
Para a arquitetura perfeita.

Retiremos das árvores profanas
A vasta lira antiga.
Sua secreta música
Pertence ao ouvido e ao coração de todos.
Cada novo poeta que nasce
Acrescenta-lhe uma corda.

II


Uma vida iniciada há mil anos atrás
Pode ter seu complemento e plenitude
Numa outra vida que floresce agora.

Nada poderá se interromper
Sem quebrar a unidade.

Um germe foi criado no princípio
Para que se desdobre em plenos múltiplos.
Nossos suspiros, nossos anseios, nossas dores
São gravados no campo do infinito
Pelo espírito sereníssimo que preside às gerações.

III


A muitos só lhes resta o inferno.
Que lhes coube na monstruosa partilha da vida
Senão um desespero sem nobreza, e a peste da alma?
Nunca ouviram a música nascer do farfalhar das árvores,
Nem assistiram à contínua anunciação
E ao contínuo parto das belas formas.
Nunca puderam ver a noite chegar sem elementos de terror.
Caminham conduzindo o castigo e a sombra de seus atos.
Comeram o pó e beberam o próprio suor.
Não se banharam no regato livre...

Entretanto, a transfiguração precede a morte.
Cada um deve realiza-la na sua carne e no seu espírito
Para que a alegria seja completa e definitiva.

IV


É necessário conhecer seu próprio abismo
E polir incessantemente o candelabro que o esclarece.

Tudo no universo marcha, e marcha para esperar:
Nossa existência é uma vasta expectação
Onde se tocam o princípio e o fim.
A terra terá que ser retalhada entre todos
E restituída um dia à sua antiga harmonia.
Tudo marcha para a arquitetura perfeita.
A aurora é coletiva.



Para o revisor, tem ali o >> há mil anos atrás>> mas isso acontece e pode ser usado. Para quem quiser saber, está na página 112 do livro, edição 2015.

A foto é de uma mesa de canto, de um sítio de design, que não registrei. Sabendo, coloque em comentários que eu registro na legenda.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Alberto de Lacerda

Mais um poeta das terras lusitanas, ainda aguardando a caravela que nos levará ao conhecimento e desfrute de tudo de bom que se produz alentejo e além.
Hoje é sexta, e o poema tem tudo a ver... ouvir, cheirar e escutar!

Desfrutem!


To Night
Esta noite vou embebedar os meus navios
rasgar os meus poemas
e as minhas raras (raríssimas)
cartas de amor.

Esta noite vou ser horrível
pior do que o costume
vou desabobadar os ceús da minha esperança
viga por viga estrela por estrela

Esta noite vou embebedar os meus navios
vou deixar de falar a imensa gente
vou encontrar um sábio chinês
que me recitará poemas muito simples
insuportáveis de tão belos

esta noite vou destruir mapas antigos
abrir certas janelas e quebrar
a possibilidade de alguém mais entrar na minha vida.

Esta noite vou pedir perdão aos meus amigos
e escrever uma última carta sem a mínima sombra de sentimentalismo

Esta noite vou embebedar os meus navios

(do livro Palácio)

terça-feira, 31 de maio de 2016

Volta!

Não é Lupicínio (pela Adriana), nem beque de fazenda. Sou eu, retomando o blog e saindo de fininho do Facebook, um antro. Não abandonarei, mas me verão muito menos.

E nada melhor para festejar um retorno do que uma análise da situação que se nos apresenta, essa falta de futuro e possibilidades.

Jorge de Lima, com aquele tino de clarividência que somente os poetas possuem ( tá bom, alguns artistas também!), escreveu o poema abaixo, sem pensar no que estaríamos atravessando.

Como, às vezes, eu me sinto em um navio à deriva pelos Mares do Sul - ou seja, nada de terra à vista - este poema sempre me cala muito à alma. E, então, não dá para calar.

"Também há as naus que não chegam/
mesmo sem terem naufragado;/
não porque nunca tivessem/
quem as guiasse no mar/
ou não tivessem velame/ 
ou leme ou âncora ou vento/
 ou porque se embebedassem/
 ou rotas se despregassem/
mas simplesmente porque/
já estavam podres no tronco/
da árvore que as tiraram".

E eu, sem ser poeta, mas meio profeta, comentei:

"É isto, de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo! Àqueles que entregaram suas esperanças a esses que ora nos governam: Começar de novo!

Se vai valer a pena? O sentimento de inação é uma tortura diária, a impotência outra, façamos o que se pode para que o sofrimento amenize..."



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Silvia Plath

Quando vão fazer "o" filme sobre ela? Até agora, nada, nenhum espelho polido o suficiente para nos deixar entrever o poço sem fundo do desespero que habitava suas palavras....

Um bom trabalho aqui, com narração da própria.







segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Magenta



(Para a Sônia, lembrando de nossas tardes na varanda, noites na cozinha, conversas sob o marulho das ondas...onde andamos?)

Magenta

Eram seus olhos,
sua pele,
tudo seu.
Magenta, como no poema,
Magenta, como na canção,
aquela cor impossível,
como viver novamente

tardes de crepúsculo...

domingo, 5 de julho de 2015

Boi da Paciência

António Ramos Rosa, morreu em 2013, que coisa! Não sei se há uma edição de Viagem Através duma Nebulosa, de 1960, mas se houver, eu quero muito.
Um dos meus poetas favoritos, aliás, em português, a maioria dos meus favoritos é de Portugal, e não do Brasil.. Coisas da vida, choques de opinião...
Abaixo, o próprio, com seus achados, suas figuras maravilhosas e seu ritmo, uma coisa de louco.

Noite dos limites e das esquinas nos ombros
noite por de mais aguentada com filosofia a mais
que faz o boi da paciência aqui?

que fazemos nós aqui?
este espetáculo que não vem anunciado
todos os dias cumprido com as leis do diabo
todos os dias metido pelos olhos adentro
numa evidência que nos cega
até quando?
Era tempo de começar a fazer qualquer coisa
os meus nervos estão presos na encruzilhada
e o meu corpo não é mais que uma cela ambulante
e a minha vida não é mais que um teorema
por demais sabido!

Na pobreza do meu caderno
como inscrever este céu que suspeito
como amortecer um pouco a vertigem desta órbita
e todo o entusiasmo destas mãos de universo
cuja carícia é um deslizar de estrelas?
Há uma casa que me espera
para uma festa de irmãos
há toda esta noite a negar que me esperam
e estes rostos de insônia
e o martelar opaco num muro de papel
e o arranhar persistente duma pena implacável
e a surpresa subornada pela rotina 
e o muro destrutível destruindo as nossas vidas
e o marcar passo à frente deste muro
e a força que fazemos no silêncio para derrubar o muro
até quando? até quando?

Teoricamente livre para navegar entre estrelas
minha vida tem limites assassinos
Supliquei aos meus companheiros.Mas fuzilem-me!
Inventei um deus só para que me matasse
Muralhei-me de amor e o amor desabrigou-me
Escrevi cartas a minha mãe desesperadas
colori mitos e distribuí-me em segredo
e ao fim ao cabo
recomeçar 
Mas estou cansado de recomeçar!
Quereria gritar: Deem árvores para um novo 
recomeço!
Aproximem-me a natureza até que a cheire!
Desertem-me este quarto onde me perco!
Deixem-me livre por um momento em qualquer parte
para uma meditação mais natural e fecunda
que me limpe o sangue!
Recomeçar!

Mas originalmente com uma nova respiração
que me limpe o sangue deste polvo de detritos
que eu sinta os pulmões com duas velas pandas
e que eu diga em nome dos mortos e dos vivos
em nome do sofrimento e da felicidade
em nome dos animais e dos utensílios criadores
em nome de todas as vidas sacrificadas
em nome dos sonhos
em nome das colheitas em nome das raízes
em nome dos países em nome das crianças
em nome da paz
que a vida vale a pena que ela é a nossa medida
que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias
que o reino da bondade dos olhos dos poetas 
vai começar na terra sobre o horror e a miséria
que o nosso coração se deve engrandecer
por ser tamanho de todas as esperanças
e tão claro como os olhos das crianças 
e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele

Mas o homenzinho diário recomeça
no seu giro de desencontros
A fadiga substituiu-lhe o coração
As cores da inércia giram-lhe nos olhos
Um quarto de aluguer
Como preservar este amor
ostentando-o na sombra
Somos colegas forçados
Os mais simples são os melhores
nos seus limites conservam a humanidade
Mas este sedento lúcido e implacável
familiar do absurdo que o envolve 
como uma vida de relógio a funcionar
e um mapa da terra com rios verdadeiros
correndo-lhe na cabeça
como poderá suportar viver na contenção total
na recusa permanente a este absurdo vivo?

Ó boi da paciência que fazes tu aqui?
Quis tornar-te amável ser teu familiar
fabriquei projetos com teus cornos
lambi o teu focinho acariciei-te em vão

A tua marcha lenta enerva-me e satura-me
As constelações são mais rápidas nos céus
a terra gira com um ritmo mais verde que o teu passo
Lá fora os homens caminham realmente
Há tanta coisa que eu ignoro
e é tão irremediável este tempo perdido!
Ó boi da paciência sê meu amigo!

Antonio Ramos Rosa
de Viagem através duma Nebulosa(1960)


Não é maravilhoso? E aqui, o vídeo do autor recitando o poema. Emocionem-se!!!